>Demitido do Inpe, Galvão é escolhido um dos 10 cientistas do ano pela revista Nature

Amazônia
O ex-diretor do Inpe ainda revela que a Revista Nature, que vai premiar os destaques do ano na ciência mundial na próxima terça-feira (13), o alçou ao rol de cientistas mais célebres do ano porque reconhece a qualidade da ciência brasileira, mas também como uma forma de protesto ao “movimento de obscurantismo e negacionismo” das questões científicas que vem sendo observado em diversos lugares do mundo.

Confira a entrevista com Ricardo Galvão:

Ricardo Galvão. Foto: Waldemir Barreto/Ag. Senado

 

Como o senhor recebeu a homenagem da Nature?

  •  Eu vim a saber que provavelmente haveria uma homenagem há três semanas, quando estava na Universidade de Columbia e a Revista Nature me entrevistou. Quiseram saber o que tinha acontecido aqui no Inpe e me parabenizaram pela posição que eu tomei em defesa da ciência e da preservação da Amazônia. Mas eu não esperava que fosse aparecer entre os dez cientistas de destaque do ano. Por isso, recebi realmente com grande satisfação que considero importante para toda a comunidade
  • Eu considero como uma homenagem a toda a comunidade científica brasileira, que tem feito um trabalho espetacular em defesa do meio ambiente. E eles disseram que uma das razões principais para isso é que, neste momento em que estamos vendo no mundo todo um certo movimento obscurantista e negacionista das questões científicas, eu tinha tido muita coragem de ter me posicionado abertamente e ter enfrentado o governo numa acusação indevida ao trabalho do Inpe. Então, acho que é uma homenagem importante para reconhecer o trabalho de toda a comunidade científica brasileira.

Como o restante da comunidade científica tem enfrentado esse movimento de negacionismo?

  • Toda a comunidade tem reagido com um posicionamento bastante forte. Inclusive, antes mesmo de eu ter tido esse embate com o presidente, a Academia Brasileira de Ciência já tinha mandado um ofício a ele apontando problemas na maneira como a questão ambiental vem sendo tratada.

Então, o governo sabia do problema do desmatamento antes de questionar os dados do Inpe?

  • O ataque ao Inpe não vem de agora. Desde que tomou posse eu vinha enfrentando problemas de divulgação de dados do Inpe em relação às queimadas na Amazônia e também em outros biomas. A minha demissão foi o ápice, porque eu já vinha contestando o ministro Salles e suas acusações desde o primeiro trabalho que fizemos, em 16 de janeiro, logo após o começo do governo. Mas o próprio governo deixou claro na campanha que ia reverter abertamente a política que sempre foi reconhecida mundialmente.

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Está na hora de o governo mudar sua postura? As sinalizações recebidas nesta semana deixam isso claro?

  • O presidente deveria entender tudo isso como um recado. Eu até brinquei nessa semana, depois da Nature e da Greta, parece até que o presidente Bolsonaro tem uma lança de ouro: todo mundo que ele ataca é reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho. Então, espero que o governo tenha a atitude de ver que não pode de maneira nenhuma continuar com essa política que está colocando o Brasil em uma situação terrível. O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente pelo seu protagonismo, sempre foi elogiado. De 2004 a 2012, reduziu seu desmatamento em mais de 80%. Foi um dos únicos países da Conferência de Paris de 2015 a assumir uma meta muito séria na redução do efeito estufa. Mas todo esse protagonismo e reconhecimento mundial está sendo destruído.

Quais as perspectivas para o desmatamento no curto prazo?

  • Confesso que estou um pouco pessimista. Na própria COP25, as afirmações do ministro Salles foram decepcionantes. É importante ter o desenvolvimento sustentável da Amazônia que ele fala, mas ele usa esse argumento para disfarçar a política do governo que não vem tomando as medidas de fiscalização que deveria. O Brasil tem grande responsabilidade no ano que vem de não ter um desmatamento maior que 3,9 mil quilômetros quadrados, mas não cumprir isso, porque neste ano o desmatamento já bateu 10 mil quilômetros quadrados e continua. É preocupante.

Diante disso, o senhor acha que o Brasil vai conseguir os recursos que busca na COP?

  • Eu teria vergonha de cobra qualquer coisa a essa altura. Inclusive o próprio Fundo Amazônia, que o governo não tem executado mais, tem mais de R$ 2 milhões armazenado que poderiam ser executados. O orçamento do governo para o Ministério do Meio Ambiente também não está sendo totalmente executado. O governo vai chegar o fim do ano com menos de 95% de execução porque não está tomando as ações que deveria tomar, mas diz que não tem recurso.

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Nesta semana, o pedido de impeachment de Salles avançou no STF. O que o senhor acha disso?

  • Eu já estive em duas audiências no Congresso e ficou bem claro que há uma preocupação grande em relação à questão ambiental. Até porque a política brasileira para as mudanças climáticas é regulamentada por lei. E o governo não está cumprindo isso. Eu inclusive, há um mês, fui chamado no Ministério Público de São Paulo, que impôs a Salles o não prosseguimento da compra de um sistema de monitoramento, já que o Inpe já faz esse serviço. Também há uma ação no Senado. Então, acho que tudo isso pode ter alguma consequência, mas não sei até que ponto.

E o senhor o que pretende fazer agora?

  • Eu sou professor da Universidade de São Paulo. Mesmo quando estava no Inpe eu era professor, eu era comissionado. Então, voltei para a universidade, estou lecionando.

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