Por Tereza Cruvinel, do Jornalistas pela Democracia


Não é fácil combater os cínicos, desprovidos que são de pudor, de freios morais, de limites no agir e falar em busca de seus objetivos. Por não ter qualquer pudor público, o cínico mente tão completamente em qualquer lugar, como fez Bolsonaro na ONU, nesta terça-feira, na tribuna da ONU. Já se falou muito das mentiras, embora parte da mídia tenha se valido de eufemismos, como “inverdades” ou “incorreções”. Ele falou o que quis para sua bolha doméstica mas não enganará o mundo, que sabe muito bem o que acontece no Brasil, tanto em relação à pandemia como ao desastre ambiental. Chamo a atenção, entretanto, para aquela palavra que foi nova para nós mas já é corrente na bolha da extrema direita, a cristofobia. Este é o novo bordão, a narrativa adicional que estão construindo para empurrar ainda mais o Brasil para as trevas.

Ela foi lançada ao debate por Bolsonaro, no discurso escandalosamente cínico, que terá custos para o Brasil, na medida em que ele acentuou a percepção negativa que o mundo tem do país sob seu governo. Como poderão os grandes fundos de investimento ou os grandes importadores de grãos e proteína animal, premidos a evitar negócios com vilões ambientais, acreditar que o Brasil vai se redimir da negligência recente e adotar uma postura responsável, que lhes inspire confiança? Não há dúvida de que os efeitos se farão sentir dentro de algum tempo, nas exportações, nas relações bilaterais e multilaterais. Sinto que a qualquer hora o acordo EU-Mercosul vai capotar.

Já a narrativa da cristofobia é uma invenção política com a qual os progressistas e democratas, não apenas a esquerda, terão que lidar aqui, na luta interna. Invenção não, invencionice. Onde os cristãos são perseguidos no Brasil? Os seguidores de religiões de matriz africana são os únicos que, a rigor, podem se queixar de discriminação e perseguição. De vez em quando um terreiro de candomblé ou um centro de umbanda é atacado. A cristofobia não existe mas pode dar voto e coesão ao bolsonarismo.

Na extrema direita ninguém dá ponto sem nó. Bolsonaro lançou o bordão agora porque ele já circula intensamente nas redes ideológicas deles. Não falou sozinha mas deu a senha para que a história comece a ser martelada. A estratégia é consolidar o apoio dos evangélicos com a narrativa de que há um movimento contra eles, contra os cristãos em geral, e que instituições como imprensa e STF tornaram-se “cristofóbicos”, afora os comunistas do PT e de todos os partidos de esquerda.

Um dos sites que já trata muito disso é o Conservadores.org.   Ali pode se ler num artigo, assinado por Claudio Godoy,  as seguintes afirmações, que podem soar espantosas mas são sedutoras para os evangélicos mais exaltados ou ressentidos.

Todos os crentes que votaram de 2002 até 2014 nos comunistas Lula e Dilma deram asas à cobra do STF marxista

E antes disso:

De 2002 até 2014 os petistas aparelharam o STF, onde os ministros militantes da esquerda avançam com pautas progressistas contrárias ao Cristianismo. Mídia, STF e militância LGBT, cristofóbicos unidos estão atacando o meio cristão.

E por onde vão atuar? Pelas redes sociais, principalmente. Por isso, tenho dito e repetido. Se PT, demais partidos de esquerda e mesmos os setores não obscurantistas liberais não investirem pesado na comunicação digital, estamos feitos. Eles continuam sendo hegemônicos ali.  Bolsonaro transformará o Brasil numa república evangélica fundamentalista e intolerante.

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